Ana Júlia tinha 18 anos. Tinha, os anos não correm mais para ela.
Ana Júlia gostava de macarrão com feijão. Gostava, os sabores não são mais sentidos por ela.
Eu era Ana Júlia. Essas palavras surgem debaixo dos meus dedos, mas não de mim.
Não de Ana Júlia.
Eu não sou Ana Júlia, não sou ninguém. A vida passa por mim. Você matou Ana Júlia.
Ana Júlia gostava de macarrão com feijão. Gostava, os sabores não são mais sentidos por ela.
Eu era Ana Júlia. Essas palavras surgem debaixo dos meus dedos, mas não de mim.
Não de Ana Júlia.
Eu não sou Ana Júlia, não sou ninguém. A vida passa por mim. Você matou Ana Júlia.
Matou Ana Júlia enquanto ela saia daquela festa, sozinha. Sua mãe não sabia onde ela estava. Por isso, a culpa é de Ana Júlia.
Ana Júlia estava cansada, mas se sentia poderosa. A mini saia emprestada por uma amiga deixava em evidência suas belas pernas morenas, ainda mais curvilíneas por conta de seu salto alto. Por isso, a culpa é de Ana Júlia.
Ana Júlia morava ao final da rua. De onde estava, conseguia ver o muro rosa. Sua cabeça misturava álcool e planos mirabolantes para entrar em casa sem ser percebida por sua mãe. A rua da casa de Ana Júlia era deserta e mal iluminada. Ana Júlia estava sendo seguida. Por você.
Ana Júlia estava cansada, mas se sentia poderosa. A mini saia emprestada por uma amiga deixava em evidência suas belas pernas morenas, ainda mais curvilíneas por conta de seu salto alto. Por isso, a culpa é de Ana Júlia.
Ana Júlia morava ao final da rua. De onde estava, conseguia ver o muro rosa. Sua cabeça misturava álcool e planos mirabolantes para entrar em casa sem ser percebida por sua mãe. A rua da casa de Ana Júlia era deserta e mal iluminada. Ana Júlia estava sendo seguida. Por você.
Ana Júlia não vê mais o muro rosa, não pensa mais em planos. O efeito do álcool é substituído pelo da adrenalina, acompanhada por
um arrepio gélido na espinha.
um arrepio gélido na espinha.
“Hoje é seu dia de sorte, linda. O papai aqui vai te mostrar para que servem essas suas pernas gostosas.”
Ana Júlia é jogada dentro de um carro, e mal percebe o que acontece, seu cabelo liso é puxado para trás e seu pescoço é cheirado. Mãos percorrem seu corpo enquanto Ana Júlia se debate e grita no banco da parte de trás do carro.
Ana Júlia não lembra o rosto de seu estuprador. Mal sabe ela que não era apenas um homem.
Ana Júlia não lembra o rosto de seu estuprador. Mal sabe ela que não era apenas um homem.
Mas eu sei. Não havia apenas um rosto. Eram rostos de uma sociedade inteira. Era o seu rosto. Ele assombra meus dias e minhas noites quando não estou morta. Quando ainda sou Ana Júlia.
“Eu prometo, prometo colaborar. Apenas use uma camisinha.”
Ana Júlia gostava de macarrão com feijão.
Ana Júlia levou uma surra. Ganhou um olho roxo.
Você tira a arma que disparará o tiro fatal de dentro da calça, e força-a garganta a dentro de Ana Júlia. Ana Júlia vomita.
Ana Júlia levou uma surra. Ganhou um olho roxo.
Você tira a arma que disparará o tiro fatal de dentro da calça, e força-a garganta a dentro de Ana Júlia. Ana Júlia vomita.
Ana Júlia levou uma surra. Perdeu dois dentes.
Você joga Ana Júlia contra a janela do carro e, forçando as pernas dela a permanecerem abertas, puxa o gatilho. Você entra em Ana Júlia. De novo. E de novo. E de novo.
Ana Júlia chora.
Ana Júlia sangra.
Você goza. Mais um tiro.
Ana Júlia sangra.
Você goza. Mais um tiro.
Você repousa seu corpo sobre o dela. Suas mãos, apertando os seios de Ana Júlia com força.
“Gostosa!”
Você joga Ana Júlia para fora do carro.
Você joga Ana Júlia para fora do carro.
“Melhor tomar cuidado ao sair de casa. Eu posso não resistir de novo.”
Ana Júlia leva uma surra. Quebra uma costela.
Ana Júlia ouve o cantar dos pneus enquanto tenta limpar as
lágrimas e o gozo de seu rosto. Eu surjo. Abraçamos nossos joelhos ralados e choramos em posição fetal. Seminuas na calçada.
Ana Júlia não gosta mais de macarrão com feijão. Ana Júlia não gosta mais de nada. Seu gostar foi levado ao cantar dos seus pneus. Ana Júlia foi levada junto.
lágrimas e o gozo de seu rosto. Eu surjo. Abraçamos nossos joelhos ralados e choramos em posição fetal. Seminuas na calçada.
Ana Júlia não gosta mais de macarrão com feijão. Ana Júlia não gosta mais de nada. Seu gostar foi levado ao cantar dos seus pneus. Ana Júlia foi levada junto.
E só sobrou eu. Um corpo vazio.
Às vezes Ana Júlia volta. E choramos juntos. Nos odiamos juntos. Mas Ana Júlia nunca mais gostou de macarrão com feijão.
Ana Júlia nunca me deu respeito. E por isso, a culpa é de Ana Júlia.
Ana Júlia nunca me deu respeito. E por isso, a culpa é de Ana Júlia.
Você matou Ana Júlia. E a culpa é dela.
(texto retirado da página Gaia Fala no facebook)
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